Nem a dominação masculina, nem a submissão feminina

Teresa – Hoje há a desconstrução do modelo de mulher submissa ao homem. Você acredita que essa mudança motiva a violência do homem contra a mulher? 

João Roberto – A questão exige um estudo pormenorizado de cada um dos elementos que compõem essa forma de violência, para conhecer melhor sua natureza. A história pessoal do indivíduo deve ser considerada, o nível social a que pertence, a maneira como foi criado, o caráter, a personalidade, se está empregado e tem um rendimento capaz de cumprir os compromissos, se recebeu educação escolar, qual o meio em que vive, a idade etc. Também é importante considerar os estereótipos do masculino e do feminino, foco do meu comentário neste momento. 

O filósofo Gilles Lipovetsky entende que “o feminino permanece fortemente orientado para o relacional, o psicológico, o íntimo, as preocupações afetivas, domésticas e estéticas; o masculino, para a instrumentalidade, o tecnocientífico, mas também para a violência e o poder.”¹ Essa couraça de masculinidade é uma das razões fortes dos conflitos entre parceiros íntimos.

 O Relatório Mundial sobre Violência e Saúde² analisa as motivações que funcionam como estopim para a explosão violenta entre parceiros íntimos. São elas:

  • Esposas desobedientes. Há homens que trazem no histórico a formação machista e consideram a mulher alguém subordinado a eles. Se contrariados, vem à tona a violência verbal ou física. Segundo Zygmunt Bauman, em seu livro Medo líquido (2006)³, “para que um domínio se sustente, é preciso tornar, e manter, vulneráveis, inseguros e amedrontados os objetos humanos.”. Isto é, para manter o estado de submissão feminina, muito homem mostra sua força física ou emprega a intimidação moral contra sua parceira. Assim, o abuso físico soma-se ao psicológico. 
  • Descumprimento de tarefas domésticas, como a ausência de refeição na hora esperada pelo homem. Esse padrão de comportamento é bastante questionado, na atualidade, e com a participação ativa da mulher no mercado de trabalho, muitos homens dividem as tarefas domésticas com as esposas. Mas ainda há muito homem que pauta sua conduta pelo machismo. De acordo com Joan Scott, estudiosa do feminismo francês, os gêneros – masculino/feminino – são uma referência fundamental para legitimar o poder. Diz ela: “Para reivindicar o poder, a referência tem que parecer segura e fixa, fora de qualquer construção humana, fazendo parte da ordem natural ou divina. […] Colocar em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema por inteiro”. 4

Dessa maneira, quebrar a rotina de servidão coloca em risco o controle masculino. Como forma de manutenção da força o homem segue, segundo estudos da Saúde, basicamente dois padrões: o grave ou o moderado. O primeiro se manifesta na forma de comportamentos agressivos como o espancamento. O segundo se reflete na frustração crônica entre os cônjuges, que também pode resultar em agressões físicas. 

  • Mulher crítica e questionadora. Esse exemplo feminino exaspera o tipo de homem que se considera intocável e não admite indagações. As perguntas que mais agravam os conflitos entre os casais são relacionadas a dinheiro ou namoradas. Marilena Chauí, filósofa brasileira, diz que pensar a dinâmica da relação esposo-esposa como unilateral intensifica a selvageria masculina e incorre-se no erro da vitimização. “A mulher também é sujeito nessa relação, sujeito dominando, heterônomo, não autônomo, mas o é.”.5
  • Saída da esposa, sem pedir permissão ao marido. As mulheres não estão mais passivas e idealistas. Isso desestabiliza o homem que pauta sua conduta pelo modelo masculino e pode dar origem a comportamentos controladores.
  • A recusa da prática sexual. Essa negativa põe em risco o domínio masculino. Pierre Bourdieu, que estudou esse tema, diz que a dominação se dá “na assimetria entre homens e mulheres, instituída na construção social. O ato sexual é pensado em função desse primado que se inscreve na série de oposições mítico-rituais: alto/baixo, em cima/embaixo etc.”.6 O abuso sexual pode ocorrer nesse contexto e é capaz de resultar em gravidez indesejada, infertilidade feminina, disfunções hormonais e ginecológicas, abortos arriscados, doenças transmitidas sexualmente.
  • Desconfiança da fidelidade feminina. O ciúme e o medo da infidelidade podem ser projeção da insegurança masculina, por isso, o ato de castrar a esposa é uma forma de mantê-la leal ao marido. Segundo Sigmund Freud, a repressão sexual em geral esteve a serviço da manutenção da monogamia, pois a mulher reprimida tende a se relacionar com um homem só. O tema central das reflexões do filósofo Gilles Lipovetsky é a mulher. Segundo ele, “doravante livres, as mulheres são mais acessíveis como parceiras sexuais, mas, ao mesmo tempo, mais intimidantes, mais ameaçadoras para o homem. Muitos homens não compreendem mais o que as mulheres esperam deles.”.1 Por isso, alguns tipos masculinos lançam mão da força física e da intimidação moral. As consequências psicológicas e de comportamento para as mulheres, segundo o Relatório Mundial da Violência e da Saúde, são: abuso de álcool e drogas; depressão e ansiedade; distúrbios de alimentação e sono; sentimentos de vergonha e culpa; fobias e síndrome do pânico; inatividade física; baixa autoestima; distúrbios de estresse pós-traumático; distúrbios psicossomáticos; tabagismo; comportamento suicida e autoflagelo; comportamento sexual inseguro. 

Além da assistência promovida pela justiça, pelos órgãos públicos, há a possibilidade do perdão. Só assim os cônjuges se libertarão dos grilhões impostos pelo desgaste, pela necessidade vaidosa de subjugar o outro, que cristaliza o desconforto da rivalidade. “Perdoar é pacificar o futuro”, diz Jean-Marie Muller. Essa é a fórmula de civilidade em que está implícito o rompimento do ciclo da violência, que acorrenta os dois polos da relação conjugal. O processo de autonomia e liberdade da mulher é uma contribuição fundamental para a melhoria das relações homem-mulher. Sem dominação e submissão a relação fica mais transparente, saudável e prazerosa. A partir daqui, homens e mulheres, autônomos e livres, devem aprofundar a consciência de que não são perfeitos, mas seres em construção, ainda ignorantes, com erros e ilusões. A capacidade de perdoar se expressa como a abençoada âncora que ampara a relação amorosa. 

 

Bibliografia:

  1. LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  2. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. Disponível em: https://www.opas.org.br/wp-content/uploads/2015/09/relatorio-mundial-violencia-saude.pdf. Acesso em: 25 jun. 2021.
  3. BAUMAN, Zigmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
  4. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. Stoa. Disponível em: http:// https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/185058/mod_resource/content/2/G%C3%AAnero-Joan%20Scott.pdf. Acesso em: 25 jun. 2021.
  5. CHAUÍ, Marilena. Participando do debate sobre mulher e violência. In: Perspectivas antropológicas da mulher. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984.
  6. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/91359/mod_resource/content/1/Bourdieu%20A%20Domina%C3%A7%C3%A3o%20masculina.pdf. Acesso em: 25 jun. 2021.

João Roberto de Araújo é pensador, escritor de conteúdos para educação socioemocional e fundador da 50-50 SEL Solutions.

 

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